O que o tempo tem com o peixe
A melhor época para a pesca
de arremesso abrange os tempos mais quentes, entre novembro
e março, ou até abril quando as primeiras frentes frias do ano
retardam. Isso vale para as praias situadas em latitudes tropicais
e subtropicais, mais sujeitas à influência das massas de ar
polar que, desde meados do outono, chegam regularmente do sul,
provocando constantes alterações nas condições do tempo e do
mar. No período de transição do calor para o frio e vice-versa
, essas frentes,que vêm acompanhadas de vento sul e mau tempo,
convulsionam o mar, ocasionando o que o caiçara chama de "maré
arruinada", inviabilizando qualquer tentativa de pesca proveitosa.
Por isso, nessa época, bem como durante o inverno, fica-se na
dependência de uma trégua no tempo, com vários dias sucessivos
de sol e temperatura amena, estável. Isso, aliás, é coerente
e compreensível, considerando que os peixes habitantes de águas
quentes só poderiam retrair-se no frio. De qualquer forma, ainda
que no inverno se possa pescar alguma coisa, será duro para
o pescador entrar no mar e ficar horas levando ondas geladas
pela cabeça. Quando bate o vento (e na praia geralmente venta)
no corpo molhado, é de arrepiar.
Os ventos mais comuns no litoral são o leste e o sul. O leste
é o vento do bom tempo e o sul é o vilão da história , o vento
do frio e do mau tempo. Transportado para a pesca, o vento leste
significa situação favorável e o vento sul é associado ao quadro
negativo. Tanto um como o outro influenciam o mar, provocando
correntezas laterais, esquentando ou esfriando as águas. Quando,
ao chegar à praia, você notar que o mar está batendo muito,correndo
fortemente para a esquerda, com ondas sujas, pode logo concluir
que não deve esperar nada em matéria de pescaria. A corrente
para a esquerda é efeito do vento sul, que, além do mais, esfria
a água. Referimos-nos, naturalmente, ás praias de São Paulo
latitudes próximas, cuja maioria tem face leste ou sudeste.
Fora o problema do esfriamento, a agitação do mar revolve o
fundo, soltando lixo e detritos de todos os tipos e misturando-os
à água, ao mesmo tempo em que afugenta os peixes para lugares
mais profundos e abrigados. Numa situação assim, o pescador
que insistirem pescar recolherá apenas essa sujeira toda que
virá pendurada nos anzóis e na linha.
Caso as águas estejam correndo para a direita de quem olhar
para o mar, é sinal de que está entrando ar quente de vento
leste e os peixes deverão estar mais perto e mais ativos. Se
o mar estiver calmo, sem correr para nenhum lado, com ondas
pequenas, cadenciadas e bem brancas, é porque há calmaria
no ar. Será uma situação das mais favoráveis para o pescador
entrar e permanecer na água, sem ter de brigar com as ondas,
sem tremer de frio e sem se cansar. Em compensação, a pesca
não será das melhores, pois não encostarão peixes graúdos nem
haverá muita movimentação dos cardumes.
Enquanto muitas espécies, moradores regulares da orla marítima,
podem ser apanhadas o ano inteiro, outras ocorrem mais em determinadas
épocas. Por exemplo, o cação e o pampo, dois dos peixes mais
apreciados pelos amadores da pesca esportiva, costumam incursionar
pelas arrebentações das praias no tempo do calor, até abril
mais ou menos. No litoral do Rio de Janeiro, além de Niterói,
na região dos lagos, onde as praias têm face sul e águas fundas,
os pescadores sabem que, com a chegada de águas mais frias no
outono, encostam grandes cardumes de tira-vira. Da mesma forma,
existem espécies que preferem águas frias e ocorrem no inverno.
Todavia, como na maioria as espécies que habitam nossas águas
costeiras são tropicais, eles se retraem,diminuem sua atividade
ou simplesmente param de pegar nos meses frios.
Os períodos do dia considerados mais propícios à pesca vão
desde pouco antes do alvorecer até as primeiras horas da manhã,e
do cair da tarde às primeiras horas da noite. Mas, além da hora,
há que se considerar as marés,que também influenciam a movimentação
dos cardumes. Nos dias de marés de águas vivas (de lua cheia
ou lua nova), os peixes se movimentam mais, chegando aos canais
mais próximos na maré alta.
As marés são um lento balanço dos oceanos causado pela atração
gravitacional da Lua e do Sol----mais da Lua, em razão de sua
proximidade. Como essa atração conjunta dos dois astros não
ocorre de maneira uniforme de um dia para outro, também as marés
variam, conforme, inclusive, a região da Terra.. No Golfo do
México, por exemplo, a diferença entre a maré alta e a maré
baixa é de cerca de 50 cm, enquanto na baia de Mont Saint-Michel,
na França, essa diferença chega a 16 m.Já na baía de Fundy,
no Canadá, a preamar pode chegar a 19 m. Por outro lado, em
certos litorais da Austrália não existem marés, bem assim no
Báltico e no Mediterrâneo. Sorte dos venezianos, pois se lá
acontecessem marés grandes , Veneza não seria a mesma. Ou quem
sabe, talvez nem existisse,Também os pescadores desses lugares
têm um problema a menos com que se preocupar, que é a tábua
das marés.
No litoral paulista, na altura de Santos e adjacências, na
lua cheia e na lua nova a maré chega a 1,60 m, ao passo que
num refluxo mais intenso o mar recua a marcas negativas de -0,10
a -0,20 m. Quando a chegada de uma imensa
frente fria na meia-estação coincide com uma preamar de altura
excepcional, verificam-se ressacas impressionantes. O Estado
do Rio de Janeiro apresenta marés parecidas. A maré média no
extremo sul do país é bem mais baixa. No porto de Rio Grande,
a diferença entre a maré baixa e a maré alta é tão pequena que
não chega a meio metro. No Nordeste, ao contrário, a oscilação
do mar é grande. Nos verdes mares bravios de Iracema, a diferença
entre a baixa-mar e a preamar chega a passar de 3 metros nas
marés de águas vivas.
O período tido como o melhor, em relação à maré, começa pouco
antes do reponto da maré cheia e vai até a metade da vazante.
Quando a maré sobe mais e vaza mais, no litoral paulista a preamar
acontece nas primeiras horas da madrugada, geralmente entre
2 e 4 horas, e, à tarde, entre as 14 e 16 horas, mais ou menos,
de maneira que as melhores horas são combinam com as marés.
Nas marés de quarto (crescente ou minguante), quando a oscilação
do mar é pequena , as águas são mais calmas e a maré nem sobe
e nem desce muito, os peixes mostram-se menos ativos, o que
torna mais problemático fisgar exemplares de bom tamanho na
faixa de arrebentação.
Como subsídio ao planejamento de pescarias, os conhecidos
calendários de pesca podem ter alguma utilidade por indicar
as fases da Lua. mais serventia ainda pode ter para o pescador
de beira-mar a tábua das marés, para que ele saiba previamente
a hora e a altura da preamar ou da baixa-mar. Mas nestes tempos
de informática e de tecnologia espacial, mais importante é ficar
ligado às informações do satélite meteorológico e aos boletins
pertinentes. Porque todas essas considerações sobre a época,
as fases da Lua, as marés, a hora do peixe e tudo mais irão
por água abaixo se o tempo não ajudar. E o pior é que contra
o mau tempo nada podemos fazer. De modo que, com o mar completamente
virado, chuva, vento sul, frio, ressaca (situação que pode parecer
muita desgraça junta, mas na prática ocorre freqüentemente,
até porque são fenômenos correlatos), o melhor é o pescador
ficar em casa, a menos que tenha tendências masoquistas e goste
de sofrer. Isso é claro, em relação à pesca na praia, porque
ainda resta a opção de fazer outros tipos de pescaria em outros
locais menos expostos aos efeitos das intempéries, como as baías
e canais.
Fonte: Noções Gerais de Pesca
de Arremesso
Autor: Silvio Fukumoto