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DE NOÇOES GERAIS DE PESCA
"O pescador moderno tem equipamentos
excelentes e estes, como sempre continuam
a evoluir. Apesar dessa excelência, os problemas
dele são ainda os mesmos de seus antepassados.
Ele deve saber onde encontrar os seus peixes
e como se aproximar deles sem ser visto. Deve
saber o que eles estão comendo ou com o que
podem ser atraídos. Deve entender vento e
tempo. A pesca continua a ser o que sempre
foi, um problema de história natural aplicada".
"Encyclopedia
Britannica"
INTRODUÇÃO
O filósofo Aristóteles, expoente da velha
e brilhante cultura grega, dizia que o homem
é um animal político (zoon politikon).
Para o pensador francês Henri Bergson
(1859-1941), o homem é o animal que rí. Para
nós, o homem é o animal que pesca (com anzol),
sim, porque o Homo sapiens pesca desde que
surgiu na face da Terra, e pesca com anzol
desde a Idade da Pedra, talvez antes de se
conhecer por gente. Habilidades, conhecimentos
e recursos desenvolvidos pelo hominídeo primitivo
na caça e na pesca foram, sem dúvida, vitais
para sua sobrevivência e expansão .
Fazendo
um exercício de "passadologia", desde que
não somos versados em arqueologia e ciências
afins, podemos imaginar que, nos primeiros
tempos de sua existência, o troglodita deve
ter sobrevivido apanhando alimentos na natureza
a sua volta. O que diz o poeta latino Virgílio
em suas Geórgicas sobre essa era pré-histórica,
ainda que repleto de simbolismo e possivelmente
fruto apenas de sua verve poética, de certa
forma não deve fugir muito à realidade. Antes
da era de Júpiter --isto é, na Idade do Ouro,
nos tempos iniciais de ócio e fartura, antes
do período em que a espécie se organizou socialmente
e começou a ficar civilizada--, o homem deveria
ter sobrevivido com o que a mãe natureza generosamente
lhe fornecia. Mas, vivendo somente da caça
e da pesca e, também, dos frutos e vegetais
comestíveis que encontrava na naturesa, com
o tempo ele deve ter começado a sentir a diminuição
das disponibilidades de alimentos, na razão
inversa de seu aumento populacional. diante
da escassez de alimentos em seu meio ambiente,
podem ter surgido disputas territoriais e
conflitos por alimentos. Como deveria prevalecer
a lei do mais forte---pois na natureza somente
os mais aptos sobrevivem---,grupos mais fracos
podem ter-se afastado dos mais fortes para
terem o que comer ou, quem sabe, para não
serem comidos. Indivíduos e grupos talvez
tenham migrado à procura de lugares menos
concorridos, onde pudessem continuar exercendo
sua vital atividade extrativa que eram a caça
e a pesca, enquanto outros, formando comunidades
e mais apegados a seu habitat, teriam
aprendido a cultivar ou a criar seus alimentos,dando
origem à agricultura e à pecuária, ainda que
sem renunciarem à caça e a pesca. Mas com
isso tinham inventado o trabalho, a dura lida
de lavrar a terra para prover seu sustento.
Com o correr dos tempos, nas comunidades mais
organizadas a caça e a pesca devem ter deixado
de ser as principais fontes de alimentos,
tornando-se atividades com caráter recreativo,
unindo o útil ao agradável, enquanto com o
surgimento das trocas mercantis de utilidades,
alguns indivíduos se teriam dedicado a caça
ou a pesca profissionalmente, apanhando bichos
do mato ou peixes apenas para consumo próprio,
mas para trocar o excedente por outros produtos
necessários a sua subsistência. A propósito,
entre os mais antigos e ilustres pescadores
de caniço e anzol constam Augusto e Trajano,
cada qual a seu tempo o todo-poderoso imperador
de Roma. E é óbvio que eles não pescavam porque
precisavam ou porque estavam doidos para comer
peixe.
Mas, inventado o anzol----de pedra, osso e
outros materiais que colhia na natureza ----,
o homem das cavernas,graças a sua inteligência
e capacidade de raciocínio, deve ter passado
a utilizar-se de galhos de arbustos, varas
ou caniços encontrados nas matas como um recurso
par aumentar o alcance de seus braços.
A construção dos primeiros aparelhos rudimentares
de lançar o anzol a distância parecidos com
uma carretilha de pesca,no século XVII na
Inglaterra, representou um aumento considerável
no alcance do anzol do pescador de beira d'água.
Mas a pesca de arremesso propriamente dita
só começaria a configurar-se mesmo no século
XIX com as invenções da carretilha multiplicadora
e, mais tarde, já em fins do século, com o
aparecimento do molinete. Acompanhando esses
melhoramentos,foram sendo desenvolvidos caniços
e linhas melhores, até o advento da era do
náilon e da fibra de vidro a partir dos anos
40 do século 20.
Portanto,em relação ao tempo em que o homem
pesca com caniço e anzol, a pesca de arremesso
é algo muitíssimo recente. Tão recente que,
se considerarmos como sendo um dia, ou 24
horas, o tempo decorrido desde a Idade da
pedra até hoje, o homem pratica a pesca de
arremessos nos últimos 8 ou 9 segundos. Mas
os melhoramentos proporcionados pelo rápido
avanço tecnológico neste lapso de tempo da
história da pesca têm sido de tal ordem que,
em poucas décadas, o material de pesca evoluiu
o que não fez em milhares de anos de história
humana.
Os peixes são os mesmos e não mudaram nada
desde eras pré-históricas, quando os primeiros
homens das cavernas os apanhavam com métodos
rudimentares. Quem mudou foi o homem, que
através dos séculos adquiriu muitos conhecimentos
e evoluiu.
A arte da pesca chama-se haliêutica. Halieuta
é o artista da pesca. Exercer bem uma arte
pressupõe habilidade e gosto pela atividade,
mas também é preciso ter conhecimento específicos,
ainda que empíricos, adquiridos no exercício
desta atividade. Assim, a pesca, se exercida
com vista a bons resultados (isso,claro, sem
deixar de lado o aspecto lúdico e de higiene
mental), é um constante exercício de observações
e descobertas,de estudo e compreensão da natureza,
no caso representada pelo peixe---seu modo
de ser e viver, seus hábitos alimentares,
suas preferências e rejeições, seu comportamento
em face das condições do tempo e do seu meio
ambiente.
Fonte:
Noções Gerais de Pesca de Arremesso
Autor: Silvio Fukumoto